quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Quiasmo (marrom-de-móvel-rococó)
Artrópodes.
Uma característica singular e com nome sugestivo faz desses animais alvo de algumas gotas da minha inveja: muda.
Uma característica singular e com nome sugestivo faz desses animais alvo de algumas gotas da minha inveja: muda.
Abandonam sem qualquer pudor o esqueleto que os sustentou durante tanto tempo. Deixam em qualquer canto uma parte de si sem dor ou sofrimento. Dependem disso para crescer.
Crescer depende de abandono.
Abandono dói e artrópodes não sentem.
Não sentir deve ser bom.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.
Fernando Pessoa
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Holocausto Cotidiano (sem-cor)
Me permito fugir do modelo proposto para um desabafo não-poético, porém carregado de lirismo.
"Danem-se", foi o que ouvi de um rapaz loiro, com cerca de 1,90m de altura, tênis nike nos pés e absolutamente nada aproveitável sob a caixa craniana. Eu falava sobre ajuda, sobre África.
Raul Seixas, com todo seu estereótipo de anti-herói, escreveu algo que fica vagando dentro de mim quando ouço coisas desse tipo,
"Eu é que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar".
De onde vem esse comodismo patológico que nos impede de pensar? Pensar! Não falo sobre dinheiro, sobre mobilizações, não falo sobre obras faraônicas, se quer falo sobre pequenas obras, falo, simplesmente, sobre pensar.
A análise patológica do naturalismo real me dá náuseas.
Expectativa média de vida: 47 anos. Mais de 3,5 milhões de pessoas fogem de guerras ou da seca. Nas guerras civis, mais de 200 mil soldados-crianças. Cerca de 18 milhões de minas terrestres espalhadas pelo território . 30 milhões de pessoas contaminadas pelo HIV.
Tudo começou - como sempre - com a ganância.
Os admirados europeus - como sempre - pisaram naquela terra, com a típica cortesia arrancaram daquele povo seu coração, arrancaram sua paz. Como bônus levaram diamantes, urânio, ouro, petróleo. Negro, muito mais negro que a cor da pele.
Negro é obrigar tribos rivais a ocuparem o mesmo território, negro é fazer de um continente um quebra-cabeças desmontado, uma colcha de retalhos, negro é o pálido e educado europeu.
"O fardo do homem branco". Quase acho graça nisso. Quase.
O homem branco deixou na África o fardo, os africanos são obrigados a carregar. Reificação, é tudo que consigo pensar. Quem são os animais?
Pessoas morrem.
O verdadeiro animal é aquele que se senta sobre sua vida privada e se esquece que existe um reino, o maior de todos, onde seu luxuoso privado nada pode comprar.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Fagulha
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
Ana Cristina César
sábado, 28 de agosto de 2010
Horizontes verticais (cinza-azulado-de-saudade)
É assim, aquela preça para acabar com a abstenção involuntária de prazer.
É aquela fome insaciável.
É a música que não deveria cessar.
É o compulsivo.
É o destrutivo.
É o perder-se.
É a distância do que há de melhor si.
É o tempo que não passa.
É o tempo que não volta.
A inocência.
É aquela fome insaciável.
É a música que não deveria cessar.
É o compulsivo.
É o destrutivo.
É o perder-se.
É a distância do que há de melhor si.
É o tempo que não passa.
É o tempo que não volta.
A inocência.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Alcateia (vermelho-uva)
Me envergonho do mundo, da podridão do padrão, da sociedade imunda feita de pessoas sujas.
Me envergonho dos hits e da cultura. Me envergonho da pobreza e da necessidade, da falta de humanidade. Me envergonho da reificação.
Me envergonho, sobretudo, de mim mesma.
Me envergonho por me envergonhar e continuar passiva, acomodada sob um suave cobertor com uma taça de vinho doce nas mãos.
O estado de natureza hobbesiano se faz presente, é meu prazer que sustenta a vergonha.
Sou seu lobo, caro lobo.
Me envergonho dos hits e da cultura. Me envergonho da pobreza e da necessidade, da falta de humanidade. Me envergonho da reificação.
Me envergonho, sobretudo, de mim mesma.
Me envergonho por me envergonhar e continuar passiva, acomodada sob um suave cobertor com uma taça de vinho doce nas mãos.
O estado de natureza hobbesiano se faz presente, é meu prazer que sustenta a vergonha.
Sou seu lobo, caro lobo.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Flores Astrais (branco-lácteo)
Ande. Mova. Olhe. Roda.
O espiral toma conta; via de leite reluzente a me guiar.
O espiral toma conta; via de leite reluzente a me guiar.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Candeia (cor-de-luz)
Se queres saber, o que mais me encanta em ti não são teus dedos, que com tanta delicadeza me afagam.
Não são teus lábios macios, que me entregam as mais doces palavras.
Não é teu riso, que me faz rir.
Se queres saber, o que mais me encanta em ti são teus olhos prateados, que refletem a pureza e toda a beleza que pode haver.
Mt 6:22
Não são teus lábios macios, que me entregam as mais doces palavras.
Não é teu riso, que me faz rir.
Se queres saber, o que mais me encanta em ti são teus olhos prateados, que refletem a pureza e toda a beleza que pode haver.
Mt 6:22
sexta-feira, 19 de março de 2010
Bolero Rouge (vermelho-como-só)
Foi o sussurro mais quente, úmido e forte. Tudo o que produzia som conspirou para que aquelas palavras tão simples e corriqueiras transbordassem temperatura, perfume, silêncio. Uma explosão de batimentos cardíacos. O coração resolveu dançar, já não precisava do peito que o carregava.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
A falta que ela o faz (cinza-translúcido)
A vida estava voltando ao normal.
Lá estava ela, caminhando com calma e com seus adoráveis passos desajeitados. Hesitou por um instante, olhou para trás, não o viu. Lá ficavam suas recordações, desde a mais antiga até as futuras, todas no mesmo lugar.
Lá estava ele, com desespero correndo nas veias, tomando o lugar de todo seu sangue. A cada segundo seu coração ficava mais esmagado, lentamente, torturando-o. O vidro embaçado por seu hálito quente. Unhas cravadas como se, com força, fosse possível alcançá-la. A indignação ganhava vida com seus sussurros ininterruptos, quase uma prece. Impotência gotejava por seus poros. Ele queria gritar a plenos pulmões para demonstrar uma mísera fatia de seu amor. Queria um beijo de adeus, ao menos uma despedida digna. Tudo o fora roubado. Restou-lhe apenas observar sua partida de longe, muito longe.
A lágrima que não rolou deixou em sua boca o gosto amargo da ausência.
Se auto-condenava por não tê-la.
Ela desapareceu entre as nuvens.
Lá estava ela, caminhando com calma e com seus adoráveis passos desajeitados. Hesitou por um instante, olhou para trás, não o viu. Lá ficavam suas recordações, desde a mais antiga até as futuras, todas no mesmo lugar.
Lá estava ele, com desespero correndo nas veias, tomando o lugar de todo seu sangue. A cada segundo seu coração ficava mais esmagado, lentamente, torturando-o. O vidro embaçado por seu hálito quente. Unhas cravadas como se, com força, fosse possível alcançá-la. A indignação ganhava vida com seus sussurros ininterruptos, quase uma prece. Impotência gotejava por seus poros. Ele queria gritar a plenos pulmões para demonstrar uma mísera fatia de seu amor. Queria um beijo de adeus, ao menos uma despedida digna. Tudo o fora roubado. Restou-lhe apenas observar sua partida de longe, muito longe.
A lágrima que não rolou deixou em sua boca o gosto amargo da ausência.
Se auto-condenava por não tê-la.
Ela desapareceu entre as nuvens.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Fé (azul-piscina)
Hoje não vou chorar, preciso ser forte.
Um sorriso estampado no rosto e decepção tatuada no peito.
Falhei. Meu melhor não foi suficiente.
Olhos no chão, cabeça baixa. Sorria, finja, engane, peque.
Perdoe-me por te desapontar. Perdoe-me.
Desilusão. Mais uma. Meus planos mendigos mais uma vez desmoronam.
Tenho que entender, ciente disso, repito. Repito, como ensinou Hitler em um de seus lapsos de lucidez, repita. Repita e sorria, afinal, o mundo não deixa de girar para contemplar seu fracasso. Cada paralelepípedo da velha cidade continua ali, estagnado, e nem um milhão de gotas de minhas lágrimas mudariam isso. Lágrimas possuem nenhuma função, portanto, hoje não vou chorar.
Um sorriso estampado no rosto e decepção tatuada no peito.
Falhei. Meu melhor não foi suficiente.
Olhos no chão, cabeça baixa. Sorria, finja, engane, peque.
Perdoe-me por te desapontar. Perdoe-me.
Desilusão. Mais uma. Meus planos mendigos mais uma vez desmoronam.
Tenho que entender, ciente disso, repito. Repito, como ensinou Hitler em um de seus lapsos de lucidez, repita. Repita e sorria, afinal, o mundo não deixa de girar para contemplar seu fracasso. Cada paralelepípedo da velha cidade continua ali, estagnado, e nem um milhão de gotas de minhas lágrimas mudariam isso. Lágrimas possuem nenhuma função, portanto, hoje não vou chorar.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
preto*
Todos aqueles erros sendo exumados. Tudo o que ela não queria. Ela é outra, isso não pode se repetir.
Amor ágape.
Faltava certeza.
Ela o ama. Ela o quer. Ela é dependente.
Dispensável.
Assustador.
Sobrava certeza.
O futuro agora parecia mais nublado.
Faltava cor.
Sobrava amor.
Faltava coragem.
Sobrava nostalgia. Dor.
Faltava contato.
Sobrava saudade.
Tão perto. Tão distante.
Distante.
Uma muralha quilométrica de não-comunicação.
Faltava um longo abraço apertado.
Sobrava amor.
Faltava cor.
(*Para a física, preto é a ausência de toda e qualquer cor.)
Amor ágape.
Faltava certeza.
Ela o ama. Ela o quer. Ela é dependente.
Dispensável.
Assustador.
Sobrava certeza.
O futuro agora parecia mais nublado.
Faltava cor.
Sobrava amor.
Faltava coragem.
Sobrava nostalgia. Dor.
Faltava contato.
Sobrava saudade.
Tão perto. Tão distante.
Distante.
Uma muralha quilométrica de não-comunicação.
Faltava um longo abraço apertado.
Sobrava amor.
Faltava cor.
(*Para a física, preto é a ausência de toda e qualquer cor.)
domingo, 3 de janeiro de 2010
Lembrete (azul-cor-de-rede)
Abrir os olhos foi algo desafiador. Tive medo. Criei coragem. Não era sonho.
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