sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A falta que ela o faz (cinza-translúcido)

A vida estava voltando ao normal.
Lá estava ela, caminhando com calma e com seus adoráveis passos desajeitados. Hesitou por um instante, olhou para trás, não o viu. Lá ficavam suas recordações, desde a mais antiga até as futuras, todas no mesmo lugar.
Lá estava ele, com desespero correndo nas veias, tomando o lugar de todo seu sangue. A cada segundo seu coração ficava mais esmagado, lentamente, torturando-o. O vidro embaçado por seu hálito quente. Unhas cravadas como se, com força, fosse possível alcançá-la. A indignação ganhava vida com seus sussurros ininterruptos, quase uma prece. Impotência gotejava por seus poros. Ele queria gritar a plenos pulmões para demonstrar uma mísera fatia de seu amor. Queria um beijo de adeus, ao menos uma despedida digna. Tudo o fora roubado. Restou-lhe apenas observar sua partida de longe, muito longe.
A lágrima que não rolou deixou em sua boca o gosto amargo da ausência.
Se auto-condenava por não tê-la.
Ela desapareceu entre as nuvens.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fé (azul-piscina)

Hoje não vou chorar, preciso ser forte.
Um sorriso estampado no rosto e decepção tatuada no peito.
Falhei. Meu melhor não foi suficiente.
Olhos no chão, cabeça baixa. Sorria, finja, engane, peque.
Perdoe-me por te desapontar. Perdoe-me.
Desilusão. Mais uma. Meus planos mendigos mais uma vez desmoronam.
Tenho que entender, ciente disso, repito. Repito, como ensinou Hitler em um de seus lapsos de lucidez, repita. Repita e sorria, afinal, o mundo não deixa de girar para contemplar seu fracasso. Cada paralelepípedo da velha cidade continua ali, estagnado, e nem um milhão de gotas de minhas lágrimas mudariam isso. Lágrimas possuem nenhuma função, portanto, hoje não vou chorar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

preto*

Todos aqueles erros sendo exumados. Tudo o que ela não queria. Ela é outra, isso não pode se repetir.

Amor ágape.

Faltava certeza.
Ela o ama. Ela o quer. Ela é dependente.
Dispensável.
Assustador.
Sobrava certeza.

O futuro agora parecia mais nublado.

Faltava cor.
Sobrava amor.
Faltava coragem.
Sobrava nostalgia. Dor.
Faltava contato.
Sobrava saudade.

Tão perto. Tão distante.
Distante.
Uma muralha quilométrica de não-comunicação.

Faltava um longo abraço apertado.
Sobrava amor.
Faltava cor.

(*Para a física, preto é a ausência de toda e qualquer cor.)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Lembrete (azul-cor-de-rede)

Abrir os olhos foi algo desafiador. Tive medo. Criei coragem. Não era sonho.