domingo, 16 de janeiro de 2011

Afinal, quem vive? (verde-grama)

Experimentar a morte abrupta e estúpida de uma pessoa querida é um tanto estranho e dolorido. Ah, que vontade de fazê-lo acordar daquilo que me parecia apenas um sono profundo, vontade de sacudi-lo e rir depois de um brincadeira sem graça que não aconteceu. Ele não levantou. A terra serviu como manto inóspito e frio. Nos dias seguintes, nas semanas seguintes, não; ele não voltou.
Ele não voltará, mas nos encontraremos, sei disso.
Só queria que ele soubesse que brota vida da sua morte.
Vida eterna.
Há um Deus maravilhoso que faz vida brotar da morte e morte brotar da vida.
Morrerá o velho homem.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Só quero te dizer, Senhor, que viver abafando meus sentimentos é muito difícil.

Quiasmo (marrom-de-móvel-rococó)

Artrópodes.
Uma característica singular e com nome sugestivo faz desses animais alvo de algumas gotas da minha inveja: muda.
Abandonam sem qualquer pudor o esqueleto que os sustentou durante tanto tempo. Deixam em qualquer canto uma parte de si sem dor ou sofrimento. Dependem disso para crescer.
Crescer depende de abandono.
Abandono dói e artrópodes não sentem.
Não sentir deve ser bom.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Holocausto Cotidiano (sem-cor)

Me permito fugir do modelo proposto para um desabafo não-poético, porém carregado de lirismo.

"Danem-se", foi o que ouvi de um rapaz loiro, com cerca de 1,90m de altura, tênis nike nos pés e absolutamente nada aproveitável sob a caixa craniana. Eu falava sobre ajuda, sobre África.
Raul Seixas, com todo seu estereótipo de anti-herói, escreveu algo que fica vagando dentro de mim quando ouço coisas desse tipo,
"Eu é que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar".
De onde vem esse comodismo patológico que nos impede de pensar? Pensar! Não falo sobre dinheiro, sobre mobilizações, não falo sobre obras faraônicas, se quer falo sobre pequenas obras, falo, simplesmente, sobre pensar.

A análise patológica do naturalismo real me dá náuseas.

Expectativa média de vida: 47 anos. Mais de 3,5 milhões de pessoas fogem de guerras ou da seca. Nas guerras civis, mais de 200 mil soldados-crianças. Cerca de 18 milhões de minas terrestres espalhadas pelo território . 30 milhões de pessoas contaminadas pelo HIV.
Tudo começou - como sempre - com a ganância.
Os admirados europeus - como sempre - pisaram naquela terra, com a típica cortesia arrancaram daquele povo seu coração, arrancaram sua paz. Como bônus levaram diamantes, urânio, ouro, petróleo. Negro, muito mais negro que a cor da pele.
Negro é obrigar tribos rivais a ocuparem o mesmo território, negro é fazer de um continente um quebra-cabeças desmontado, uma colcha de retalhos, negro é o pálido e educado europeu.
"O fardo do homem branco". Quase acho graça nisso. Quase.
O homem branco deixou na África o fardo, os africanos são obrigados a carregar. Reificação, é tudo que consigo pensar. Quem são os animais?
Pessoas morrem.
O verdadeiro animal é aquele que se senta sobre sua vida privada e se esquece que existe um reino, o maior de todos, onde seu luxuoso privado nada pode comprar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Fagulha

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.



Ana Cristina César

sábado, 28 de agosto de 2010

Horizontes verticais (cinza-azulado-de-saudade)

É assim, aquela preça para acabar com a abstenção involuntária de prazer.
É aquela fome insaciável.
É a música que não deveria cessar.
É o compulsivo.
É o destrutivo.
É o perder-se.
É a distância do que há de melhor si.
É o tempo que não passa.
É o tempo que não volta.
A inocência.