A vida estava voltando ao normal.
Lá estava ela, caminhando com calma e com seus adoráveis passos desajeitados. Hesitou por um instante, olhou para trás, não o viu. Lá ficavam suas recordações, desde a mais antiga até as futuras, todas no mesmo lugar.
Lá estava ele, com desespero correndo nas veias, tomando o lugar de todo seu sangue. A cada segundo seu coração ficava mais esmagado, lentamente, torturando-o. O vidro embaçado por seu hálito quente. Unhas cravadas como se, com força, fosse possível alcançá-la. A indignação ganhava vida com seus sussurros ininterruptos, quase uma prece. Impotência gotejava por seus poros. Ele queria gritar a plenos pulmões para demonstrar uma mísera fatia de seu amor. Queria um beijo de adeus, ao menos uma despedida digna. Tudo o fora roubado. Restou-lhe apenas observar sua partida de longe, muito longe.
A lágrima que não rolou deixou em sua boca o gosto amargo da ausência.
Se auto-condenava por não tê-la.
Ela desapareceu entre as nuvens.
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