Leia apenas após dez anos (parte 3- Utopia)
Sempre perdia a conta da quantidade de vezes em que seus planos se Frustraram, isso acontecia logo no início, quando passavam por sua mente todas as pessoas com as quais passou horas planejando, imaginando, sonhando.
Inverossímil.
Esse universo Onírico insistia em permanecer ali, por mais que os anos passassem e um projeto de ruga se instalasse no canto de um dos olhos cor-de-jabuticaba, como dizia seu avô. Você gostava da lembrança que tinha dele, como se fosse um retrato, carregava todo o Futuro que você desejava para si mesma: o grande crítico, senhor de si, um tanto quanto revolucionário e antipático com os que mereciam, quase que auto-suficiente.
Quimera.
Se tivesse tido a oportunidade de tê-lo por mais tempo provavelmente se incomodaria com o fato de suas idas ao bar da esquina serem freqüentes, ou de seu humor se modificar drasticamente nessas ocasiões.
Utopia.
A Esperança de que algum de seus planos se concretizasse já havia se esvaído completamente. Você sabia que planos muito, muito melhores, estavam sendo desenhados em seus mínimos detalhes e esses, definitivamente, não eram feitos por você, mas eram moldados conforme cada uma de suas necessidades. Havia Alguém extraordinário que se dava ao trabalho de pensar em tudo por você. Suas esperanças se baseavam nisso, isso te confortava e te aliviava.
O universo fantasioso e irrealizável ficava por sua conta, só para sentir o doce gosto de saber que caso tudo aquilo se concretizasse nunca alcançaria a perfeição que, de fato, tinha.
O universo verdadeiramente maravilhoso te aguardava.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Para não deixar a sensação morrer (cinza-nublado-antes-de-temporal)
Leia apenas após dez anos (parte 2 – O Indesejado)
Tudo estava bem. Mas aquele silêncio dele a incomodava. Para ele, o silêncio não era nada além de poder ficar parado admirando-a ou não pensar em mais nada, porque aquele momento bastava por estar junto dela. Para ela, havia algo errado. Algo que nenhum deles pudesse explicar, mas, de alguma forma, isso a deixava desconfortável, insegura.
O poço.
Toda a formação imagética – um tanto lúdica – do que ele havia construído em sua mente estava desmoronando. Toda a idealização de poder fazê-la sentir-se única era vã. Tudo desabava por ele não saber responder as próprias questões que carregava dentro de si.
Ele se sentia horrível quando, mais uma vez, decepcionava-a por dizer coisas sem pensar no poder das palavras e no que elas poderiam trazer de interpretação, mesmo que, em princípio, ele quisesse dizer outra coisa.
Ela era maravilhosa e, toda essa maravilha, em alguns instantes, parecia ser inalcançável por uma barreira que, de repente, ele colocava em sua frente sem perceber.
“E agora era fatal que faz de conta terminasse assim...”
...”assim”, na verdade, era muito interessante e o “faz de conta” nunca foi tão real. Agora ele estava com ela em seus braços. A rede balançava num ritmo suave, a música envolvia o momento e ele que sussurrava palavras de amor no ouvido de sua amada.
Pela primeira vez ele enxergava uma corda esperando para puxá-lo; o poço já não era tão profundo.
Nunca foi tão real.
Tudo estava bem. Mas aquele silêncio dele a incomodava. Para ele, o silêncio não era nada além de poder ficar parado admirando-a ou não pensar em mais nada, porque aquele momento bastava por estar junto dela. Para ela, havia algo errado. Algo que nenhum deles pudesse explicar, mas, de alguma forma, isso a deixava desconfortável, insegura.
O poço.
Toda a formação imagética – um tanto lúdica – do que ele havia construído em sua mente estava desmoronando. Toda a idealização de poder fazê-la sentir-se única era vã. Tudo desabava por ele não saber responder as próprias questões que carregava dentro de si.
Ele se sentia horrível quando, mais uma vez, decepcionava-a por dizer coisas sem pensar no poder das palavras e no que elas poderiam trazer de interpretação, mesmo que, em princípio, ele quisesse dizer outra coisa.
Ela era maravilhosa e, toda essa maravilha, em alguns instantes, parecia ser inalcançável por uma barreira que, de repente, ele colocava em sua frente sem perceber.
“E agora era fatal que faz de conta terminasse assim...”
...”assim”, na verdade, era muito interessante e o “faz de conta” nunca foi tão real. Agora ele estava com ela em seus braços. A rede balançava num ritmo suave, a música envolvia o momento e ele que sussurrava palavras de amor no ouvido de sua amada.
Pela primeira vez ele enxergava uma corda esperando para puxá-lo; o poço já não era tão profundo.
Nunca foi tão real.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Para não deixar a sensação morrer (vermelho-sangue)
Leia apenas após dez anos (Parte 1 - O Amor)
Você tinha o namorado que sempre sonhou, talvez não sempre, mas o desejou muito desde o dia em que o conheceu jogando basquete, depois falando de seus (des)amores freqüentes – muito mais freqüentes do que você desejava – e que nunca, absolutamente nunca, pareciam deixar uma brecha pra você, isso te fazia mal, nada considerável, no fundo, aquele protótipo de sofrimento era até um pouco engraçado.
Depois de alguns anos ele resolveu te enxergar, foi ótimo. Falou com você sobre seus sentimentos, você tremeu, e como tremeu! O pedido de namoro foi inesperado. Apesar de absurdamente rápido e arriscado, tudo fluiu naturalmente e foi incrível. Você aprendeu que o que sentia a princípio era uma admiração, amor era o que vocês conquistavam diariamente.
Você gostava do jeito que ele passava a mão em seus cabelos, lentamente, dando um arrepiozinho ingênuo, acompanhado de uma sensação de proteção e uma vontade de deixar escapar todas aquelas palavras que vinham num fluxo instantâneo, e que depois, se julgaria boba até mesmo por pensar. Jamais falaria. Gostava da forma que ele te abraçava forte como se você nunca fosse conseguir escapar. Gostava daquele olhar pseudo-analítico que ele te lançava quando você fechava os olhos por alguns instantes e se perdia no nada que se transformava sua cabeça, aquele nada bom que transmitia paz, paz e satisfação. Gostava dos olhos dele. Gostava da delicadeza dele. Gostava da risada desafinada que soava quando você apertava sua barriga. Ele era maravilhoso.
Era ruim quando o maravilhoso acabava se confundindo com o impossível e com o indesejado, isso acontecia algumas vezes. O impossível estava sempre presente no segundo plano (vide Vestido de Noiva). O indesejado estava sempre presente no primeiro, falando coisas que não deviam sair daqueles lábios, talvez de lábio algum, mas que quando você escutava na hora errada desestabilizava seu maravilhoso mundo. No fim o maravilhoso fazia jus a seu título e tudo ficava bem. Talvez até melhor que antes. Superação. Aprendizado. Intimidade.
O indesejado dizia sofrer e continuava presente.
O impossível no segundo plano. Sempre lá, apenas lá.
Você tinha o namorado que sempre sonhou, talvez não sempre, mas o desejou muito desde o dia em que o conheceu jogando basquete, depois falando de seus (des)amores freqüentes – muito mais freqüentes do que você desejava – e que nunca, absolutamente nunca, pareciam deixar uma brecha pra você, isso te fazia mal, nada considerável, no fundo, aquele protótipo de sofrimento era até um pouco engraçado.
Depois de alguns anos ele resolveu te enxergar, foi ótimo. Falou com você sobre seus sentimentos, você tremeu, e como tremeu! O pedido de namoro foi inesperado. Apesar de absurdamente rápido e arriscado, tudo fluiu naturalmente e foi incrível. Você aprendeu que o que sentia a princípio era uma admiração, amor era o que vocês conquistavam diariamente.
Você gostava do jeito que ele passava a mão em seus cabelos, lentamente, dando um arrepiozinho ingênuo, acompanhado de uma sensação de proteção e uma vontade de deixar escapar todas aquelas palavras que vinham num fluxo instantâneo, e que depois, se julgaria boba até mesmo por pensar. Jamais falaria. Gostava da forma que ele te abraçava forte como se você nunca fosse conseguir escapar. Gostava daquele olhar pseudo-analítico que ele te lançava quando você fechava os olhos por alguns instantes e se perdia no nada que se transformava sua cabeça, aquele nada bom que transmitia paz, paz e satisfação. Gostava dos olhos dele. Gostava da delicadeza dele. Gostava da risada desafinada que soava quando você apertava sua barriga. Ele era maravilhoso.
Era ruim quando o maravilhoso acabava se confundindo com o impossível e com o indesejado, isso acontecia algumas vezes. O impossível estava sempre presente no segundo plano (vide Vestido de Noiva). O indesejado estava sempre presente no primeiro, falando coisas que não deviam sair daqueles lábios, talvez de lábio algum, mas que quando você escutava na hora errada desestabilizava seu maravilhoso mundo. No fim o maravilhoso fazia jus a seu título e tudo ficava bem. Talvez até melhor que antes. Superação. Aprendizado. Intimidade.
O indesejado dizia sofrer e continuava presente.
O impossível no segundo plano. Sempre lá, apenas lá.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Viva (respingos-de-azul-petróleo-em-folha-braca)
Chega! Não quero mais que pessoas morram na minha vida. Não quero mais assassiná-las. Não quero mais que elas se suicidem. Nada de pessoas mortas, lembranças mortas. Quero pessoas vivas, quero lembranças vivas, quero vida! Vida!
Tantos planos frustrados.
Tantos momentos inesquecíveis completamente apagados.
Tantas promessas eternas quebradas.
Tantas pessoas maravilhosas se transformando em uma pequena porção de imagens desconexas e confusas.
Tanta morte, morte.
Medo.
Medo de que o alicerce pleno de vida de hoje se transforme na sepultura de amanhã. Quero-o vivo, vivo e túrgido.
*Eis um apelo: não morra, nunca!
Tantos planos frustrados.
Tantos momentos inesquecíveis completamente apagados.
Tantas promessas eternas quebradas.
Tantas pessoas maravilhosas se transformando em uma pequena porção de imagens desconexas e confusas.
Tanta morte, morte.
Medo.
Medo de que o alicerce pleno de vida de hoje se transforme na sepultura de amanhã. Quero-o vivo, vivo e túrgido.
*Eis um apelo: não morra, nunca!
sábado, 5 de dezembro de 2009
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
O Poço
Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.
(Pablo Neruda)
Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.
(Pablo Neruda)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Lembrete (verde-grama-em-dia-de-piquenique)
"É bom sentir as cordas do violão vibrando com o som da rua."
Dia 36 (cinza-fuligem)
Angústia. Eis que me deparo com um belo exemplar de tal modelo, uma sensação estranha, sinestésica, parece que vai ferir, doer, mas não passa de parecer. Todo o espaço em volta diminui, some, falta espaço para andar, falta espaço para pensar. Sudorese, taquicardia, impotência. Nada. É isso, você é um potinho transbordando nada. Espere, não há mais nada a se fazer. Acalme-se, passou. Esquece, não pensa mais.
"Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?" Não são corpo e vida mais que um pedaço inóspito de papel?
Inóspito. Gélido. Pálido. Apático. Morto.
Morto.
"Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?" Não são corpo e vida mais que um pedaço inóspito de papel?
Inóspito. Gélido. Pálido. Apático. Morto.
Morto.
sábado, 10 de outubro de 2009
Erros (roxo-amarelado-em-degradê)
Ela jurou que nunca, jamais, repetiria os erros, não aqueles, sua vida merecia, no mínimo, erros novos. Ela queria novos erros. Precisava disso. O primeiro novo erro começou como um grande erro, pois, já não era novo - e lá estava ela quebrando seus auto-juramentos novamente, o velho erro - mas como era a primeira vez que ela quebrava específicamente aquele juramento, podia considerar como um novo erro. Considerou. E num piscar de olhos lá estava ela dizendo: Sim, amor, eu quero! Foi assim que ela adquiriu - termo que certamente Locke aprovaria, eu, como clássica e ignorante admiradora de Marx, não - um namorado. No silêncio do primeiro-beijo-de-novo-namorado ela pensava com ar de esperança: dessa vez Tudo será diferente, nada de velhos erros, nada de velhas dores, Tudo novo. E lá estava ela se entregando. O velho erro inicial, Tudo novamente.
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