segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

(Pablo Neruda)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Lembrete (verde-grama-em-dia-de-piquenique)

"É bom sentir as cordas do violão vibrando com o som da rua."

Dia 36 (cinza-fuligem)

Angústia. Eis que me deparo com um belo exemplar de tal modelo, uma sensação estranha, sinestésica, parece que vai ferir, doer, mas não passa de parecer. Todo o espaço em volta diminui, some, falta espaço para andar, falta espaço para pensar. Sudorese, taquicardia, impotência. Nada. É isso, você é um potinho transbordando nada. Espere, não há mais nada a se fazer. Acalme-se, passou. Esquece, não pensa mais.
"Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?" Não são corpo e vida mais que um pedaço inóspito de papel?
Inóspito. Gélido. Pálido. Apático. Morto.
Morto.