Leia apenas após dez anos (parte 2 – O Indesejado)
Tudo estava bem. Mas aquele silêncio dele a incomodava. Para ele, o silêncio não era nada além de poder ficar parado admirando-a ou não pensar em mais nada, porque aquele momento bastava por estar junto dela. Para ela, havia algo errado. Algo que nenhum deles pudesse explicar, mas, de alguma forma, isso a deixava desconfortável, insegura.
O poço.
Toda a formação imagética – um tanto lúdica – do que ele havia construído em sua mente estava desmoronando. Toda a idealização de poder fazê-la sentir-se única era vã. Tudo desabava por ele não saber responder as próprias questões que carregava dentro de si.
Ele se sentia horrível quando, mais uma vez, decepcionava-a por dizer coisas sem pensar no poder das palavras e no que elas poderiam trazer de interpretação, mesmo que, em princípio, ele quisesse dizer outra coisa.
Ela era maravilhosa e, toda essa maravilha, em alguns instantes, parecia ser inalcançável por uma barreira que, de repente, ele colocava em sua frente sem perceber.
“E agora era fatal que faz de conta terminasse assim...”
...”assim”, na verdade, era muito interessante e o “faz de conta” nunca foi tão real. Agora ele estava com ela em seus braços. A rede balançava num ritmo suave, a música envolvia o momento e ele que sussurrava palavras de amor no ouvido de sua amada.
Pela primeira vez ele enxergava uma corda esperando para puxá-lo; o poço já não era tão profundo.
Nunca foi tão real.
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